Sala-01b-min

Cinemas buscam alternativas em meio a crise causada pelo novo coronavírus

Entre cortes e financiamento coletivo, exibidores tentam contornar impacto financeiro

31 de março de 2020 às 14:15
Matheus Mans

Logo no início da epidemia de covid-19, os cinemas se viram obrigados a fechar as portas. Afinal, são lugares com alta concentração de pessoas, pouca circulação de ar e compartilhamento de assentos. Agora, com 92% das salas fechadas no Brasil, exibidores buscam maneiras de sobreviver.

Da noite para o dia, donos de cinema viram o faturamento de seus negócios cair. Até chegar a zero, na obrigatoriedade de fechar todas as suas salas.

Especialistas já apontam que o setor deve ser um dos mais afetados pela paralisação de atividades. “Ao contrário da maioria dos outros serviços, não tem como fazer delivery de uma sala de cinema”, resume André Fernandes, professor de economia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Desta forma, algumas empresas do setor já estão buscando maneiras e alternativas de manter o faturamento e evitar o fechamento de suas portas.

Busca de financiamento

Quem primeiro tomou uma atitude foi o Petra Belas Artes, tradicional cinema de rua fincado na Rua da Consolação, em São Paulo. Assim, após duas crises por falta de patrocínio, o Belas abriu um financiamento coletivo (crowdfunding). A ideia é arrecadar dinheiro pra pagar os funcionários.

Afinal, o patrocínio da cervejaria Petra — em vigor desde 2019 — serve para o pagamento do alto aluguel do imóvel. O restante vem da bilheteria.

“Primeiramente, coloquei os funcionários em férias coletivas, antecipando essa despesa. Mas se ficarmos mais tempo fechado, vira uma questão grave”, explica André Sturm, diretor do cinema. “Não quero demitir. Por isso, me antecipei e criei esse financiamento coletivo. É a nossa solução”.

Petra Belas Artes abriu financiamento coletivo (Crédito: Divulgação)

Por enquanto, o Belas arrecadou quase R$ 35 mil, com mais de 420 participantes — a meta é de R$ 50 mil. No entanto, Sturm já olha pro futuro. “Se houver permanência da situação, abrimos o segundo. Também seria interessante termos linha de crédito especial. Tudo ajuda”, afirma.

A rede de cinemas Cinemark, enquanto isso, tem enviado uma pesquisa à consumidores para compreender a receptividade de fazer “delivery de pipoca”. Dentre outras questões, a empresa questiona sobre o interesse em combos, o que mais pediria na bomboniere e quais os momentos ideias.

Questionada pela reportagem do Filmmelier, a assessoria de imprensa da Cinemark disse não ter informações sobre o serviço de delivery de pipoca.

Cortes

Logo no começo da crise, chamou a atenção uma decisão, também da rede de cinemas Cinemark, em abrir um programa de demissão voluntária (PDV) e um programa de qualificação remunerado. No primeiro caso, ficaria garantido o FGTS. No segundo, o funcionário receberia só 80% do salário.

Questionada sobre esse assunto, a Cinemark emitiu uma nota afirmando que atendeu “às determinações de diversas autoridades” e que “iniciou diálogo com seus colaboradores e sindicato para encontrar de forma conjunta as melhores alternativas para a administração da crise sanitária e econômica”.

Procurado pela reportagem, o sindicato da categoria não respondeu aos pedidos de entrevista do Filmmelier até o fechamento desta matéria.

O Kinoplex, enquanto isso, decidiu antecipar as férias coletivas de maneira geral e irrestrita. Consultada, a assessoria de imprensa da rede confirmou a decisão dizendo que esta foi a “forma de manter o contrato de trabalho” com os funcionários. “De outra forma, isso não seria possível”, finalizou.

Para o diretor e produtor de cinema Paulo Sérgio Almeida, fundador do Filme B, portal especializado no mercado, não há outra solução. “O exibidor concentra seus gastos no aluguel e na folha de pagamentos”, diz. “O que eles podem fazer é cortar todos os gastos possíveis e inimagináveis”.

Especialistas apontam para ‘quebradeira’ no mercado (Crédito: Flickr/Diego David Garcia)

Futuro dos cinemas

Algumas medidas já estão sendo tomadas para aliviar o impacto desta crise no mercado exibidor. Entidades ligadas ao setor, por exemplo, solicitaram o fim da chamada “cota de tela” até o final do ano. Assim, a ideia é permitir que os cinemas possam variar mais o conteúdo.

Além disso, representantes de exibidores pediram ajuda ao governo pra liberação de uma verba pública, direcionada, para resgate de empresas.

O cenário, porém, fica dramático ao se considerar que a abertura de salas deverá ser lenta e gradativa. Especialistas indicam que os cinemas só serão normalizados três meses após o fim da crise. Antes disso, exibidores terão que se virar com vendas parciais, público reduzido e medidas de higiene.

Também fica claro que haverá uma sobrecarga de lançamentos, mesmo com o streaming e o video on demand tendo um papel central nesta crise.

“Poucos vão
sobreviver à isso”

Paulo Sérgio Almeida, do Filme B, afirma que o cenário será dramático. “Acredito que, tirando as grandes redes, teremos uma quebradeira geral”, diz ele. “Afinal, 2020 é um ano perdido. Vamos conseguir, no máximo, atingir 30% do faturamento do ano passado. Poucos vão sobreviver à isso”.

Já André Sturm, do Belas Artes, afirma que o setor deverá fazer algo inédito: dar as mãos e se unir. “Não existe uma coordenação nesse mercado, seja de exibidores ou distribuidores. É sempre cada um por si”, afirma o diretor do cinema. “Após a crise, teremos que pensar juntos numa saída”.